1g de Prosa ou Poesia ao dia

Desenhados, rabiscados, coloridos. Devaneios, pensamentos e sonhos frouxos, viscerais e casuais. Manifestos firmes, diretos, indiretos e algo mais.

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Asas e Voz

Deu-me uma infância adulta demais. Deu-me responsabilidade demais, deu-me lágrimas e dores demais. Tirou de mim os queridos muito cedo. Deixou-me as migalhas dos que restaram… O resto do resto.

Não sei exatamente se algum dia tive asas.
Acho que, se as tive, elas eram obsoletas, assim como nas aves que apenas caminham, demasiado pesadas para usar as asas.

Presa à terra, nada mais poderia fazer que explorá-la e sonhar com os céus, a grande imensidão. Sentir as texturas e provar dos sabores, caminhar e caminhar levando um pouco das pessoas e deixando um pouco de mim.
[Muitas vezes deixando muito de mim]

Dentro do meu viveiro, eu canto uma canção tristonha, um tilintar de metais dissonantes. Caminhando ao lado da liberdade, coloquei meu pé no alçapão. Hoje estou perdida entre o que vale a pena e o que realmente vale a pena. Agora não há nem mais penas nas asas.

Pergunto-me todos os dias se estou sendo exatamente extremista… Se estou entregando-me completamente, pois, só isso me restou. As vezes vejo-me fria e sólida e não encontro alegrias momentâneas nas minhas ações e nas ações alheias. A vida virou um ato sem sangue. Uma peça de um ato só. Uma peça parece estar faltando nesta engrenagem.

A minha melodia se espalha dolorida. Ela é paixão e febre, ela é um grito duradouro e lancinante.

Deu-me voz e deixou-me pesada com asas que não voam.
Fez e faz-me cantar porque não posso voar.

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